
Foi muito a propósito que Charles Richet deu por iniciado com William Crookes,
em 1872, o período científico da metapsíquica, hoje parapsicologia.
Possivelmente, nenhum cientista que se atreveu a estudar com afinco os
fenômenos objetivos da parapsicologia foi tão controvertido quanto William
Crookes.
Nenhum levantou tanta celeuma em torno de suas afirmações acerca dos fenômenos
que observou; nenhum teve a sua reputação tão atacada; e nenhum foi tão
firmemente honesto em suas convicções científicas quanto ele.
Agora, após mais de um século, a extraordinária figura de William Crookes
emerge límpida e majestosa, desafiando serenamente aqueles que ainda tentam, em
vão, enlamear-lhe a imagem. A obra deste sábio extraordinário tem resistido aos
embates do tempo e aos ataques mesquinhos de seus adversários gratuitos,
unicamente porque é toda ela, límpida e cristalinamente apoiada sobre uma
granítica base de fato. Quem estuda, sem má-fé e sem preconceitos, os trabalhos
de William Crookes, impressiona-se pela pureza, simplicidade e clareza meridiana
de seus relatórios. Dos seus trabalhos, transpiram a sinceridade, a firme
convicção e a serenidade de um sábio que tranquilamente proclama a verdade, sem
inquietar-se com o julgamento dos demais, por achar-se seguro de que o erro
está com aqueles que negam a evidência dos fatos.
Os seus dados biográficos são extraídos, aqui, da excelente Encyclopaedia of
Psychic Science, de Nandor Fodor (USA: University Books, 1974).
Sir William Crookes (1832-1919) pode ser considerado um dos mais proeminentes
físicos do século XIX. Em 1863, foi eleito membro da Royal Society. Obteve as
seguintes láureas: a Royal Gold Medal, em 1875; a David Medal, em 1888; a Sir
Joseph Copley Medal, em 1904; foi nomeado cavaleiro, em 1897, pela rainha
Vitória; e, em 1910, ganhou a Ordem de Mérito. Foi presidente das seguintes instituições: Royal
Society, Chemical Society, Institution of Electrical Engineers, British
Association e Society for Psychical Research. No campo das
pesquisas científicas, Crookes é conhecido como o descobridor do elemento
químico de número atômico 81, o Tálio; do Radiômetro; do Espintariscópio; do
tubo de raios catódicos, mais conhecido como Tubo de Crookes, etc.
Na área da divulgação científica, ele foi fundador do Chemical News, em 1859, e
editor do Quarterly Journal of Science, em 1864. Em 1880, recebeu uma medalha
de ouro e o prêmio de 3.000 francos, da Academia de Ciências da França.
Na ocasião em que William Crookes passou a interessar-se pelos fenômenos
paranormais, houve uma grande expectativa em torno dessa decisão, por parte do
grande público. Seu nome era por demais conhecido nos meios científicos, e o
seu veredicto seria, naturalmente, aceito como decisivo julgamento do movimento
então chamado Spiritualism.
Certamente, William Crookes devia achar-se a par da repercussão nada favorável,
na imprensa, do relatório da London Dialectical Society. Pairava no ar uma
certa hostilidade surda contra o Spiritualism. A má vontade com relação a este
movimento era evidente, especialmente por parte da imprensa e do meio
científico. Se Crookes se decidiu a sondar tão perigoso terreno, é porque
confiava no método científico positivo, com o qual se achava tão familiarizado.
O seu interesse despertou, após ter assistido a uma sessão com a médium Mary
Marshall (1842-1884), em julho de 1869. Esta médium foi também iniciadora do
Dr. Alfred Russel Wallace, na investigação dos fenômenos paranormais. Os
fenômenos eram banais: raps, movimentos e levitação de uma mesa, nós dados em
lenços, escrita direta em lousas etc. A partir de 1867, ela produziu sessões de
voz direta, nas quais se manifestava o famoso Espírito John King.
Em dezembro de 1869, Crookes assistiu às sessões do célebre sensitivo J. J.
Morse (1848-1919), o mais extraordinário médium psicofônico daquela época, o
qual o impressionou bastante. Em julho de 1870, depois que Henry Slade chegou a
Londres, ele anunciou sua decisão de investigar seriamente os fenômenos
espíritas. Publicou, então, no Quarterly Journal of Science um artigo
intitulado: Spiritualism Viewed by the Light of Modern Science (O
'Spiritualism' visto à Luz da Moderna Ciência). São suas as palavras neste
artigo: Modos de ver ou opiniões não posso dizer que possuo sobre um assunto
que eu não tenho a presunção de entender. A seguir, ele acrescentou: Prefiro
entrar na investigação, sem noções preconcebidas sejam quais forem, como do que
possa ou não ser, mas com todos os meus sentidos alerta e prontos para
transmitirem a informação ao cérebro; acreditando, como creio, que não temos,
de nenhuma maneira, esgotado todo o conhecimento humano ou examinado as
profundezas de todas as forças físicas. Segundo ele, tais investigações
foram-lhe sugeridas por um eminente homem que exercia grande influência no
pensamento do país. Finalmente, a derradeira sentença: O crescente emprego dos
métodos científicos produzirá uma geração de observadores que lançará o resíduo
imprestável do 'Spiritualism', de uma vez por todas, ao limbo desconhecido da
magia e da necromância.
Tal anúncio foi recebido com especial júbilo pela imprensa. Havia uma expectativa
geral de que, desta vez, o Spiritualism teria sua correta avaliação. Em suma,
seria colocado em sua exata posição e avaliado em suas devidas proporções, isto
é, não receberia nenhuma aprovação. Após submetido ao escalpelo do método
científico, tudo não passaria de fraude, logro e imposturice.
É um fenômeno difícil de explicar exatamente essa aversão contra os fatos do
Spiritualism. Talvez se deva isso, em parte, à influência da Filosofia
Positivista, que, naquela época, se difundira pelas elites culturais da Europa.
Sabe-se que o relatório da London Dialectical Society, de 20 de julho de 1870,
já tivera péssima recepção por parte da imprensa e também por grande fracção
dos intelectuais de então. E deve frisar-se que a sua comissão, composta de 33
membros, era formada por homens ilustres. A única explicação para tal reação,
seria o fato de a comissão ter concluído que os fenômenos do Spiritualism**
eram reais.
Entre 1869 e 1875, Crookes levou a efeito um número enorme de sessões com os
mais variados médiuns; as de maior importância, no seu próprio laboratório
pessoal. São cinco os seus principais grupos de experiências com os médiuns
mais qualificados e por ordem cronológica: Daniel Dunglas Home, Kate Fox,
Charles Edward Williams, Florence Cook e Annie Eva Fay. Além desses, ele teve
experiências esparsas com os seguintes médiuns: senhora Marshall, J. J. Morse,
aos quais já nos referimos, senhora Event, o reverendo Staiton Moses, senhora
Mary M. Hardy, senhorita Showers e inúmeros outros de menor fama.
As experiências feitas com Daniel Dunglas Home parecem as mais bem controladas
das cinco principais séries. Foram relatadas no The Quarterly Journal of
Science, a partir de 1871, mais tarde enfeixadas num volume sob o título
Researches in the Phenomena of Spiritualism e publicados também nos Proceedings
of the Society for Psychical Research(Vol. VI, 1889-90, pp. 98-127).
Tais experiências constaram de diversos fenômenos de efeitos físicos, tais como
movimentos de corpos pesados com contato, mas sem esforço mecânico por parte do
médium. Para controlar e medir esses fenômenos, Crookes construiu e montou
aparelhos dotados de alavancas e dinamômetros, bem como registradores gráficos
operados mecanicamente. Dentro desta categoria de fenômenos, destaca-se um
deles pelo inusitado. Trata-se de um acordeão que era tocado, tendo apenas uma
de suas extremidades presa entre os dedos da mão do médium. A outra extremidade
contendo as teclas, ficava dependurada. O instrumento, assim suspenso dentro de
uma gaiola de madeira e arame, era misteriosamente tocado e, inclusive, as suas
teclas eram acionadas por suposta mão invisível.
Foram investigados os fenômenos de percussão e outros ruídos surgidos sob a
ação do médium. Objetos pesados situados a determinada distância do médium eram
movimentados ostensivamente. Assim, mesas e cadeiras elevavam-se do chão por si
sós. Todos esses fenômenos, em sua maioria, ocorriam à luz clara, permitindo
absoluto controle.
O médium D. D. Home é famoso também pelas suas levitações. Diz Crookes: Há pelo
menos 100 casos bem verificados de elevação do sr. Home, produzidos em presença
de muitas pessoas diferentes; e ouvi mesmo da boca de 3 testemunhas: o conde de
Dunraven, lord Lyndsay e o capitão C. Wynne, a narração dos casos mais notáveis
desse gênero acompanhados dos menores incidentes. (Crookes, W. Fatos Espíritas,
Rio: FEB, 1971, pp. 36 e 37).
Inúmeros outros fenômenos extraordinários foram reportados por Crookes. Entre
eles destacam-se os efeitos luminosos. Eis alguns:
Em plena luz, vi uma nuvem luminosa pairar sobre um heliotrópio colocado em
cima de uma mesa, ao nosso lado, quebrar-lhe um galho, e trazê-lo a uma
senhora, e, em algumas ocasiões, percebi uma nuvem semelhante condensar-se sob
nossos olhos, tomando uma forma de mão e transportar pequenos objetos. (Opus
cit., p. 40)
Noutras ocasiões ocorreram em plena luz fenômenos de materialização parcial.
Transcrevemos alguns descritos por Crookes: Pequena mão de muito bela forma
elevou-se de uma mesa da sala de jantar e deu-me uma flor; apareceu e depois
desapareceu três vezes, o que me convenceu de que essa aparição era tão real
quanto a minha própria mão. (Opus cit., p. 41)
Tais membros, parcialmente materializados, eram, algumas vezes, vistos a
formar-se a partir de nuvens ectoplásmicas.
Algumas vezes, é preciso dizer, ofereciam antes a aparência de nuvem vaporosa
condensada em parte, sob a forma de mão. (Opus cit., p. 41)
Tais mãos, quando tocadas, davam a sensação ora de frias como de gelo, ora de
quentes e vivas, chegando a cumprimentar com firme aperto de mão o
investigador. Crookes, certa ocasião, reteve uma dessas mãos, resolvido a não a
deixar escapar. Entretanto, ocorreu fato singular: em vez de fazer qualquer
esforço para libertar-se, a mão materializada simplesmente se desmaterializou,
parecendo dissolver-se em vapor!
Entre as pessoas convidadas por William Crookes para assistirem a tais
fenômenos e os testemunharem, contavam-se as seguintes: o seu assistente
químico, Williams; seu irmão Walter; o eminente físico e astrônomo, ex-presidente
da Royal Society, sir William Huggins, e o jurisconsulto Sarjeant Cox.
Foram, também, convidados para participarem do grupo de observadores os
secretários da Royal Society. Entretanto, recusaram o convite. Não quiseram
investigar pessoalmente os fatos.
Familiares de Crookes também assistiram às sessões, durante as quais os grandes
sensitivos e agentes paranormais eram por ele observados e estudados.
Os relatórios de William Crookes a respeito da força psíquica, por ele
verificada de maneira inequívoca, assim como os relatos dos demais fenômenos
que, de certa forma, davam apoio às teorias espiritualistas, provocaram
tremenda decepção entre aqueles que esperavam justamente o contrário. Crookes,
ao que parece, já contava com esse tipo de reação. Em 20 de junho de 1871, ele
escrevia, após ter enviado primeiro um relatório à Royal Society, cinco dias
antes: Considero ser meu dever enviar primeiro à Royal Society, porque assim
fazendo, eu deliberadamente lanço o peso de minha reputação científica em apoio
à verdade daquilo que envio.
Em julho de 1871, Crookes publicou um relato sobre a famosa série de testes com
D. Home e também com Kate Fox, no Quarterly Journal of Science, sob o título:
Experimental Investigation of a New Force. Em outubro, do mesmo ano, e no mesmo
periódico, ele publicou o artigo Some Further Experiments on Psychic Force, com
uma explicação de sua abordagem à Royal Society.
No próprio mês de outubro daquele ano, estourou a reação pública: um violento
ataque anônimo surgiu na Quarterly Review. O anonimato não funcionou, pois logo
se soube que sua origem era o oficial de registro da London University, o
conhecido biólogo Dr. W. B. Carpenter, membro da Royal Society.
Em dezembro, daquele ano, William Crookes publicou, no Quarterly Journal of
Science, o artigo Psychic Force and Modern Spiritualism a Reply to the
Quarterly Review. Era a resposta ao artigo de Carpenter, desmascarando-o e
refutando ponto por ponto os seus ataques.
O jornal Echo, de 31 de outubro de 1871, publicou uma carta anônima a ele
enviada e assinada B. Nesta carta, o autor pôs em forma definitiva alguns dos
rumores contra Crookes, que se haviam desencadeado depois do artigo de
Carpenter. O anônimo B referia-se a informações e críticas de um tal Mr. J, a
quem ele atribuía autoridade para julgar Crookes. Este logo descobriu o covarde
autor da carta anônima, um certo John Spiiler, que fora, numa ocasião admitido
a assistir duas sessões com D. D. Home, na residência de Sarjeant Cox. Crookes
achava-se presente no momento, mas não havia, ainda, iniciado as suas pesquisas
sistemáticas sobre mediunidade de D. D. Home.
A esta e todas as demais críticas, Crookes deu a devida resposta, quando
reconheceu alguma importância nas mesmas.
Prosseguindo os passos de Crookes, agora no que toca às ectoplasmias de Katie
King, obtidas pela mediunidade de Florence Cook (1856-1904). Sua mediunidade
manifestou-se desde a sua infância, quando afirmava ver Espíritos e ouvir
vozes. Tais fatos eram levados pouco a sério pelos seus familiares, que os
atribuíam a produtos da sua imaginação infantil. Em 1871, aos 15 anos de idade,
a sua mediunidade começou a aflorar mais intensamente e foi-se desenvolvendo
com o correr do tempo.
Em 22 de abril de 1872, numa sessão na qual se achavam presentes a mãe, os
irmãos e uma irmã da médium, além da criada Mary, materializou-se o Espírito
Katie King, parcialmente e pela primeira vez. Numa carta dirigida ao diretor do
periódico The Spiritualist, de Londres, Harrison, a própria Florence Cook
relatou o ocorrido, pois manteve-se em vigília durante a manifestação: Katie
mostrou-se na abertura das cortinas; os seus lábios moveram-se; por fim, falou
durante alguns minutos com a minha mãe. Todos puderam acompanhar os movimentos
dos seus lábios.
Como eu não a via muito bem de onde me encontrava, pedi-lhe que se voltasse
para mim. Ela atendeu e virou-se. “Com muito gosto desejo atender-te”, disse.
Então pude observar que a parte superior de seu corpo estava formada somente
até ao busto; o resto de seu corpo era uma nebulosidade vagamente luminosa.
(Rodrigues, W. L. V. Katie King, Matão: O Clarim, 1975, p.32).
Posteriormente, Florence Cook passou a entrar em transe profundo. Daí em
diante, Katie King foi adquirindo mais consistência e autonomia, chegando a
sair inteiramente da cabina escura e a passear livremente entre os assistentes,
mostrando-se à luz clara.
Em dezembro de 1873, durante uma sessão em que se achavam entre os convidados,
o conde e a condessa de Caithness, o conde de Medina Pomar e um certo W.
Volckman, Katie King mostrou-se tão nitidamente que despertou suspeitas neste
último. Volckman, subitamente, avançou contra Katie King, agarrando uma de suas
mãos e prendendo-a pela cintura com o outro braço. Estabeleceu-se uma luta, na
qual dois amigos da médium tentaram socorrer Katie King. O advogado Henry
Dumphy conta que ela pareceu perder os pés e as pernas e, fazendo um movimento
semelhante ao de uma foca na água, escapuliu sem deixar traços de sua existência
corporal, tendo desaparecido inclusive os véus brancos em que se envolvia.
Segundo Volckman, ela libertou-se violentamente. Mas o fato incontestável é que
uns cinco minutos mais tarde, quando se restabeleceu a calma e a cabina foi
aberta, ali foi encontrada Florence Cook perfeitamente composta em seu vestido
preto e calçada com suas botas. As amarras que a prendiam estavam intactas,
assim como o lacre impresso com o sinete do anel do conde de Caithness, tal
como no início da sessão. Foi-lhe dada uma busca, mas não se descobriu qualquer
vestígio de vestes ou véus brancos. Como resultado da brutal prova, a médium
adoeceu. (Fodor, N.
Encyclopaedia of Psychic Science, USA: University Books, 1974, p. 62).
Logo
após este incidente, Florence Cook procurou sir William Crookes e solicitou-lhe
que investigasse a sua mediunidade.
Naquela ocasião, devido a certos fenômenos que ocorriam numa escola onde
Florence Cook tinha um emprego, e também em virtude da repercussão na imprensa,
dos fatos que com ela ocorriam, a diretora demitiu-a de sua colocação. Desse
modo, Florence Cook viu-se desempregada. Um senhor que se interessava vivamente
pelas faculdades da srta. Cook, ofereceu-lhe uma pensão permanente com a
condição de ela manter-se em atividade mediúnica exclusivamente para fins de
pesquisa científica. A referida pensão duraria enquanto Florence se mantivesse
solteira. O nome desse generoso protetor era Charles Blackburn. Quando ocorreu
o incidente com o desastrado Valckman, Charles Blackburn excluiu Florence da
assistência pública e confiou-a exclusivamente aos cuidados de William Crookes,
para investigações rigorosamente científicas.
Katie King era o pseudônimo adotado pelo Espírito de Annie Owen Morgan. Ela era
o Espírito guia de Florence Cook. Dizia ter sido filha de Henry Owen Morgan,
famoso pirata que foi protegido por Charles II e feito governador da Jamaica. O
Espírito de H. O. Morgan adotou o pseudônimo de John King, tendo-se
manifestado, pela primeira vez, em 1850, com os irmãos Davenport.
Katie King colaborou de maneira notável com William Crookes. Vamos transcrever
os relatos de algumas sessões controladas por Crookes e reportadas pessoalmente
por ele.
Este episódio, do qual extraímos o texto que se segue, mostra-nos um fato de
grande importância: quando o médium não está em transe suficientemente
profundo, pode ocorrer uma ectoplasmia incompleta. Neste caso, o duplo astral
da médium arrasta consigo o ectoplasma. O Espírito, então, se sobrepõe a este
conjunto, surgindo daí uma forma híbrida, com a aparência do médium. A sessão
realizava-se na casa do sr. Luxmore: Pouco depois, a forma de Katie apareceu ao
lado da cortina, dizendo que o fazia porque havia perigo em se afastar do seu
médium, visto que este não se achava bem e não poderia ser lançado em sono
suficientemente profundo.
Eu — William Crookes — estava colocado a alguns pés da cortina, atrás da qual a
srta. Cook se achava sentada, tocando-a quase, e podia frequentemente ouvir os
seus gemidos e suspiros, como se ela sofresse. Esse mal-estar continuou por
intervalos, durante toda a sessão, e uma vez, quando a forma de Katie estava
diante de mim, na sala, ouvi distintamente o som de um suspiro doloroso,
idêntico aos que a srta. Cook tinha feito ouvir, por intervalos, durante todo o
tempo da sessão e que vinha de trás da cortina onde ela devia estar sentada.
Confesso que a figura era surpreendente na sua aparência de vida e de
realidade, e tanto quanto eu podia ver, à luz um pouco fraca, os seus traços
assemelhavam-se aos da srta. Cook; mas, entretanto, a prova positiva, dada por
um dos meus sentidos, pois que o suspiro vinha da srta. Cook, no gabinete,
enquanto a figura estava fora dele, esta prova é muito forte para ser destruída
por simples suposição do contrário, mesmo bem sustentada.
Posteriormente sir William Crookes organizou uma série de sessões no seu laboratório
particular, situado em sua própria residência. Foi aí que se deram as melhores
ectoplasmias de Katie King, durante as quais, inúmeras vezes, puderam ser
vistas e até fotografadas, ao mesmo tempo, a materialização e a médium.
Crookes pôde ver simultaneamente Katie King e Florence Cook e esta sessão
ocorreu em 12 de março de 1874, na casa de Crookes: Voltando ao meu posto de
observação, Katie apareceu de novo e disse que pensava poder mostrar-se a mim
ao mesmo tempo que a sua médium. Abaixou-se o gás e ela pediu-me a lâmpada
florescente. Depois de se ter mostrado à claridade, durante alguns segundos,
restituiu-ma, dizendo: 'Agora entre e venha ver a minha médium'. Acompanhei-a
de perto à minha biblioteca e, à claridade da lâmpada, vi a srta. Cook estendida
no canapé, exatamente como eu a tinha deixado; olhei em torno de mim para ver
Katie, porém ela havia desaparecido...
Em outra sessão Crookes conseguiu ver, durante um largo tempo, simultaneamente
a médium e a entidade materializada. Esta sessão ocorreu em Hackney. Nesta
ocasião, Crookes obteve permissão de Katie King para enlaçar sua cintura e
abraçá-la, repetindo sem incidentes a desastrada experiência de W. Volckman.
Crookes, em artigo publicado no The Spiritualist, disse: O sr. Volckman ficará satisfeito
ao saber que posso corroborar a sua asserção, de que o 'fantasma' (que afinal
não fez nenhuma resistência) era um ser tão material quanto a própria srta.
Cook.
Prosseguindo em seu artigo, Crookes relatou o seguinte episódio, ocorrido nessa
mesma sessão: Katie, disse então que dessa vez julgava-se capaz de se mostrar
ao mesmo tempo que a srta. Cook. Abaixei o gás, e em seguida, com a minha
lâmpada florescente penetrei o aposento que servia de gabinete.
Mas, eu tinha pedido previamente a um dos meus amigos, que é hábil estenógrafo,
para anotar toda a observação que eu fizesse, enquanto estivesse no gabinete,
porque bem conhecia eu a importância que se liga às primeiras impressões, e não
queria confiar à minha memória mais do que fosse necessário: as suas notas
acham-se neste momento diante de mim.
Entrei no aposento com precaução; estava escuro e foi pelo tacto que procurei a
srta. Cook; encontrei-a de cócoras no soalho.
Ajoelhando-me deixei o ar entrar na lâmpada e, à sua claridade, vi essa moça
vestida de veludo preto, como se achava no começo da sessão, e com toda a
aparência de estar completamente insensível. Não se moveu quando lhe tomei a
mão; conservei a lâmpada muito perto do seu rosto, mas continuou a respirar
tranquilamente.
Elevando a lâmpada, olhei em torno de mim e vi Katie, que se achava em pé,
muito perto da srta. Cook e por trás dela. Katie estava vestida com roupa
branca, flutuante, como já a tínhamos visto durante a sessão. Segurando uma das
mãos da srta. Cook na minha e ajoelhando-me ainda, elevei e abaixei a lâmpada,
tanto para alumiar a figura inteira de Katie, como para plenamente convencer-me
de que eu via, sem a menor dúvida, a verdadeira Katie, que tinha apertado nos
meus braços alguns minutos antes, e não o fantasma de um cérebro doentio. Ela
não falou, mas moveu a cabeça, em sinal de reconhecimento. Três vezes examinei
cuidadosamente a srta. Cook, de cócoras, diante de mim, para ter a certeza de
que a mão que eu segurava era de fato a de uma mulher viva, e três vezes voltei
a lâmpada para Katie, a fim de examinar com segurança e atenção, até não ter a
menor dúvida de que ela estava diante de mim. Por fim, a srta. Cook fez um
ligeiro movimento e imediatamente Katie deu-me um sinal para que me fosse
embora. Retirei-me, para outra parte do gabinete e deixei então de ver Katie,
mas só abandonei o aposento depois que a Srta. Cook acordou e que dois dos
assistentes entrassem com luz. (Crookes, W. Fatos Espíritas. Trad. de Oscar
D’Argonnel, Rio: FEB, 1971, pp.69-73)
Apesar de cerrado ataque de que foi alvo, devido aos seus relatórios acerca dos
fenômenos que observou e investigou durante vários anos, sir William Crookes
nem uma só vez titubeou em afirmar sua convicção na realidade dos fatos por ele
pesquisados.
Diante da British Association at Bristol, na sua palestra presidencial, em
1989, ele declarou: Trinta anos se passaram desde que eu publiquei um relatório
de experiências, visando demonstrar que além do nosso conhecimento científico
existe uma Força exercida por inteligência diferente da inteligência ordinária,
comum aos mortais. Não tenho nada a retratar. Mantenho-me fiel às minhas
afirmações já publicadas. Na realidade, eu poderia acrescentar muito mais, além
disso.
E numa entrevista na The International Psychic Gazette, em 1917, ele repetiu:
Nunca tive jamais qualquer ocasião para modificar minhas ideias a respeito.
Estou perfeitamente satisfeito com o que eu disse nos primeiros dias. É
absolutamente verdadeiro que uma conexão foi estabelecida entre este mundo e o
outro.» (Fodor, N.
Encyclopaedia of Psychic Science, USA: University Books, 1974, p.70).
William
Crookes foi um marco inicial do período científico da história da
parapsicologia.
________________
(**) Nota: sobre a palavra inglesa Spiritualism: A National Spiritualist
Association of America definiu o Spiritualism da seguinte forma: É a Ciência,
Filosofia e Religião da vida contínua, baseada sobre o fato demonstrado da
comunicação, por meio da mediunidade, com aqueles que vivem no Mundo
Espiritual... etc. Dada a sua semelhança com o Espiritismo, passaremos, doravante,
a traduzir Spiritualism pela palavra Espiritismo, sem contudo significar isso
uma total identificação entre os dois sistemas.